sexta-feira, 18 de maio de 2012


                 O QUE TEMOS FEITO COM NOSSO TEMPO

Paulo Pacheco e Bia Dias

As pessoas correm contra o tempo o tempo todo e, o tempo corre cada vez mais rápido.  Até parece um dique rompido, o qual não se consegue deter.
No meu tempo de criança, as datas festivas demoravam uma eternidade para chegar, aniversários, dia das crianças, o natal e a páscoa, tudo demorava muito.
As festividades eram sempre na casa dos avós, eles faziam questão de que fosse assim. Já era uma tradição encontrar toda a família lá. Até que um dia o vô se foi.
Lembro ainda daquela tarde chuvosa e triste, em que um dos tios chegou correndo, chamou mamãe de lado e falou alguma coisa pra ela e em seguida a segurou pelos ombros e, me parece ate a sacudiu e pude então ouvir: - Você tem de ser forte! Olha as crianças! – mamãe chorou baixinho tentando se esconder da gente. Eu era o mais velho dos irmãos. Já podia entender certas coisas. Então mamãe me chamou e disse qual era o assunto.
Tá certo. Eu era o mais velho e já tinha algum entendimento mas tenho de confessar até hoje é difícil aceitar que o vô se foi. Simplesmente eu não estava preparado ainda pra ficar sem a companhia, sem os conselhos, sem as brincadeiras e brigas do avô. E assim sem ninguém perguntar o que eu achava, o vô se foi.  Parece que tudo mudou a partir daí.
A memória do vô ainda está muito viva dentro de mim, mas o tempo parece ter enlouquecido desde então. Tudo passa tão depressa. Parece que os dias estão muito mais curtos, e atropelando uns aos outros.
Se não usarmos o calendário, agendas e outros instrumentos para organizar nosso dia a dia não conseguiríamos,  nem nos lembrar das datas importantes, como aniversario de casamento, de namoro, dos parentes e, quando vemos o natal já está chegando de novo.
Sabe? Uma coisa de que gostava muito era apreciar o por do sol e o cair da noite, e hoje parece que eles já nem existem mais. Pois o nosso tempo está sendo absorvido pelas nossas lides diarias. Todos os nossos sentidos estão presos as tarefas diárias ao ponto de não termos mais tempo de apreciar um lindo por do sol.
E o que se pode fazer? Como vamos mudar isso? Parece que perdemos algo muito importante durante a vida. Algo como o entusiasmo e a fascinação por coisas simples. Coisas como o por do sol por exemplo. É como se tivéssemos perdido a capacidade de nos envolver pelo que é belo, por aquilo que nos fez tão felizes na logincua infância. 
Ah, se eu pudesse voltar a casa dos avós, aquele tempo que quando lembro me traz um misto de saudade, alegria e tristeza. Que me faz as vezes rir, outras chorar lembrando das traquinagens com os primos, dos ralhos do vô, dos esfolões nos joelhos, e daqueles lindos por do sol.
Mas como pra tudo, o tempo não pode voltar e agora nossa realidade é este louco correrio a que fomos submetidos. Apesar de que gostaria muito de poder mudar o atual estado das coisas e, fazer o tempo andar como na minha infância, não sou capaz disso, reconheço.
Mas tenho o entendimento de o porquê do tempo estar tão louco. É que nós mesmos nos obrigamos a um sem fim de tarefas, que muitas das vezes seriam dispensáveis até. Por exemplo, trabalhar no final de semana. Ta certo as vezes é preciso. Mas quando o for devemos tirar um outro dia para substituir o tempo com a família.  
Outra coisa que vejo tomando o tempo que na minha infância gastávamos com os primos na casa do avô é essa parafernália tecnológica que hoje faz os nossos filhos reféns dela. Os filhos hoje preferem estar atrás de um vídeo game ou de um computador, ao invés de estar brincando na terra e subindo em arvores como nós fazíamos. E tudo isso faz parecer que o tempo voa. Nosso comprometimento com coisas que são menos importantes do que os relacionamentos que tínhamos quando eu era criança e que aos poucos fomos substituindo por essa parafernália tecnológica.  
            Vejam bem, não sou contra a tecnologia! Sou contra o fato de que nós mesmos nos fazemos escravos dela e permitimos que nossos filhos também se tornem seus escravos. E muitas vezes enganamos a nós mesmos ponderando sobre a “segurança” que estamos dando a eles por estarem em casa. Mas e onde está o relacionamento de que todo ser humano precisa. Nós já o trocamos pelo nosso trabalho e o computador para o nosso filho.
E em alguns casos se chegou ao fundo do mais profundo poço. Soube de um caso em que a família dentro de casa se comunica por e-mail. Até para avisar que a janta esta servida, ou que está na hora da escola.
É até engraçado, mas a nossa busca por liberdade tem nos feito escravos.