O QUE TEMOS FEITO COM NOSSO TEMPO
Paulo Pacheco e Bia Dias
As
pessoas correm contra o tempo o tempo todo e, o tempo corre cada vez mais
rápido. Até parece um dique rompido, o
qual não se consegue deter.
No
meu tempo de criança, as datas festivas demoravam uma eternidade para chegar,
aniversários, dia das crianças, o natal e a páscoa, tudo demorava muito.
As
festividades eram sempre na casa dos avós, eles faziam questão de que fosse
assim. Já era uma tradição encontrar toda a família lá. Até que um dia o vô se
foi.
Lembro
ainda daquela tarde chuvosa e triste, em que um dos tios chegou correndo,
chamou mamãe de lado e falou alguma coisa pra ela e em seguida a segurou pelos
ombros e, me parece ate a sacudiu e pude então ouvir: - Você tem de ser forte!
Olha as crianças! – mamãe chorou baixinho tentando se esconder da gente. Eu era
o mais velho dos irmãos. Já podia entender certas coisas. Então mamãe me chamou
e disse qual era o assunto.
Tá
certo. Eu era o mais velho e já tinha algum entendimento mas tenho de confessar
até hoje é difícil aceitar que o vô se foi. Simplesmente eu não estava
preparado ainda pra ficar sem a companhia, sem os conselhos, sem as
brincadeiras e brigas do avô. E assim sem ninguém perguntar o que eu achava, o
vô se foi. Parece que tudo mudou a
partir daí.
A
memória do vô ainda está muito viva dentro de mim, mas o tempo parece ter
enlouquecido desde então. Tudo passa tão depressa. Parece que os dias estão
muito mais curtos, e atropelando uns aos outros.
Se
não usarmos o calendário, agendas e outros instrumentos para organizar nosso
dia a dia não conseguiríamos, nem nos
lembrar das datas importantes, como aniversario de casamento, de namoro, dos
parentes e, quando vemos o natal já está chegando de novo.
Sabe?
Uma coisa de que gostava muito era apreciar o por do sol e o cair da noite, e
hoje parece que eles já nem existem mais. Pois o nosso tempo está sendo
absorvido pelas nossas lides diarias. Todos os nossos sentidos estão presos as
tarefas diárias ao ponto de não termos mais tempo de apreciar um lindo por do
sol.
E o
que se pode fazer? Como vamos mudar isso? Parece que perdemos algo muito
importante durante a vida. Algo como o entusiasmo e a fascinação por coisas
simples. Coisas como o por do sol por exemplo. É como se tivéssemos perdido a
capacidade de nos envolver pelo que é belo, por aquilo que nos fez tão felizes
na logincua infância.
Ah,
se eu pudesse voltar a casa dos avós, aquele tempo que quando lembro me traz um
misto de saudade, alegria e tristeza. Que me faz as vezes rir, outras chorar
lembrando das traquinagens com os primos, dos ralhos do vô, dos esfolões nos
joelhos, e daqueles lindos por do sol.
Mas
como pra tudo, o tempo não pode voltar e agora nossa realidade é este louco
correrio a que fomos submetidos. Apesar de que gostaria muito de poder mudar o
atual estado das coisas e, fazer o tempo andar como na minha infância, não sou
capaz disso, reconheço.
Mas
tenho o entendimento de o porquê do tempo estar tão louco. É que nós mesmos nos
obrigamos a um sem fim de tarefas, que muitas das vezes seriam dispensáveis
até. Por exemplo, trabalhar no final de semana. Ta certo as vezes é preciso.
Mas quando o for devemos tirar um outro dia para substituir o tempo com a
família.
Outra
coisa que vejo tomando o tempo que na minha infância gastávamos com os primos
na casa do avô é essa parafernália tecnológica que hoje faz os nossos filhos
reféns dela. Os filhos hoje preferem estar atrás de um vídeo game ou de um
computador, ao invés de estar brincando na terra e subindo em arvores como nós
fazíamos. E tudo isso faz parecer que o tempo voa. Nosso comprometimento com
coisas que são menos importantes do que os relacionamentos que tínhamos quando
eu era criança e que aos poucos fomos substituindo por essa parafernália
tecnológica.
Vejam bem, não sou contra a
tecnologia! Sou contra o fato de que nós mesmos nos fazemos escravos dela e
permitimos que nossos filhos também se tornem seus escravos. E muitas vezes
enganamos a nós mesmos ponderando sobre a “segurança” que estamos dando a eles
por estarem em casa. Mas e onde está o relacionamento de que todo ser humano
precisa. Nós já o trocamos pelo nosso trabalho e o computador para o nosso
filho.
E em
alguns casos se chegou ao fundo do mais profundo poço. Soube de um caso em que
a família dentro de casa se comunica por e-mail. Até para avisar que a janta
esta servida, ou que está na hora da escola.
É
até engraçado, mas a nossa busca por liberdade tem nos feito escravos.

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